|
Foto: A.Martin Imagem: S. Vasconcellos Formatação do Blog: J.Melo Bruxa: Eu, mesma! | |
|
Bruxinhos que eu amo Ponto Final Pitadas "O silêncio pode ser de ouro....mas às vezes é duro, frio e com a empáfia deste mesmo metal..." Mensagem As palavras são de prata, mas o silêncio é de ouro! |
NOVO BLOG Apesar da Iara me dizer que Blog é um só, estou fazendo experiência com o Blogger. Experiência, porque não sei se a "coisa vai rolar" do mesmo jeito que acontece por aqui, onde os bate-papos vão saindo. Parece que no Blogger é mais estanque. Mas, como é experiência, qualquer coisa, eu deleto aquele. Anota aí: www.caldeirao-da-bruxa.blogspot.com
11Jun2008 - 11:44 | ( 24 ) comentários
A TESTEMUNHA Tinha sido um dia particularmente infeliz. Pela primeira vez havia se esquecido do aniversário da empregada, que evidentemente ficou magoadíssima. Por conta disso, falou pelos cotovelos durante o dia inteiro sobre sua festa de aniversário, que tinha sido "um escândalo de maravilhosa", dos sobrinhos serelepes que aprontaram todas e ainda trouxe o álbum de fotografias do grande evento. Tudo bem... Ela merecia... Tinha esquecido... Ok! Isso acontece! No intervalo de tanta tagarelice, foi para a área de serviço do apartamento para tomar um pouco de ar – a empregada detestava a área de serviço e a evitava o quanto podia. Olhou para fora, admirando a tarde iluminada. Daquele ponto, no entardecer, olhando ao longe, podia-se ver a serra escurecendo e acendendo suas luzinhas. Era realmente uma coisa bonita de se ver. Colocou os cotovelos no parapeito da janela e imaginou se um dia teria coragem de ter uma casa no alto da serra. Ficar afastada do centro, poder colocar os pés na grama, sentir o cheiro da terra molhada... Não sabia. Porque por outro lado, era tão bom não precisar de um caseiro, depender de uma empregada mensalista ou de um cachorro bravo para ter segurança... Odiava cães bravos. Se arrepiou toda e esfregou os braços. Foi aí que viu, lá embaixo, o casal. Ela era sua vizinha. Achava que era do apartamento bem abaixo do seu. Não sabia seu nome, só sabia que devia ser música, ou gostava muito de música. Sabia disso porque lá pelas quatro da tarde ela ensaiava no seu piano umas músicas que desconfiava que fossem daqueles músicos famosos, o Bach, Mozart... um deles. Ou todos eles. Não entendia nada dessas músicas. O casal olhou para cima e olharam diretamente para ela. Então a vizinha também a reconheceu e cumprimentou com um sorriso cativante. Sim, ela era realmente muito simpática. Ele... Meio carrancudo. Só olhou para ela, para logo em seguida baixar novamente a cabeça e continuarem o seu passeio pela área do prédio. Ele parecia meio tenso, mas devia ser assim mesmo. Sempre gostamos dos nossos opostos, não é assim? Então bateu aquela solidão. Não aquela solidão de gente que adora gente em volta e que de repente se vê sozinha. Não... Mas aquela solidão doída, da falta de movimento na vida, nem tanto de pessoas e sua atenção, mas o movimento contrário, quer dizer, do dar-se, do entregar-se, o ato de amar, seja lá o que for. Pensou que se gostasse de fumar esse seria o momento ideal para tirar do maço um cigarro e soltar umas baforadas. Como não gostava disso, entrou novamente para a cozinha e abriu a porta da geladeira. Como imaginava, a empregada tinha limpado a geladeira. E com a "limpança", todas as coisas realmente gostosas que estavam em pequenos potes, tinham ido para o lixo. Claro... Foi passando o dia assim, na modorra. Da sala para a cozinha, da cozinha para o quarto, do quarto para a sala, da sala para a cozinha e da cozinha para a área de serviço, até a empregada ir embora. Isso já passava das quatro da tarde. E nesse momento reparou que a vizinha não tinha ensaiado ao piano. Estranhou, evidentemente, porque ela não falhava nunca. Esperou mais uma hora na esperança de ouvir o teclado ser martelado, mas nada... Novamente foi para a área de serviço e esticou-se toda para ver se escutava algo. Mas tudo o que ouvia eram coisas serem arrastadas e finalmente uma porta bater com violência. Nem uma voz sequer. Sua alma gelou. E se aconteceu alguma coisa com sua música? Quer dizer, com sua vizinha? Será que ela estava bem? Será que ela tinha brigado com o namorado lá embaixo e tentado o suicídio? Será que ele era tão importante assim para ela? Mas por que alguém cometeria o suicídio por causa do amor de outro? Em sua cabeça, viu a vizinha estendida no chão do banheiro com o vidro de comprimidos de... de... de sei lá o que jogado ao lado e vazio. Meu Deus! E agora? O que devia fazer? Na mesma hora ligou para a portaria e pediu para o porteiro fazer a ligação para o apartamento abaixo. -Ninguém atente, dona Vânia. – diz o porteiro, naquela voz anazalada e arrastada. -Você sabe se ela saiu? – perguntou ansiosa. -Não vi, não. Pelo menos não no meu plantão – respondeu ele. -Você sabe se ela recebeu alguém hoje? – perguntou, sentindo-se intrometida. -Não sei, não, dona Vânia. Não tá nem marcado aqui no registro. – respondeu mais uma vez o porteiro. -Está bem, então. Obrigada. – com o coração apertado. -Senhora quer que eu deixe recado para ela, quando ela voltar? – diz ele, solícito. -Não... Não é preciso, obrigada. – e desliga o interfone imaginando qual o próximo passo. Pensou em descer para o apartamento da vizinha e tocar a campainha. Mas o que ela falaria caso ela atendesse à porta? Talvez a velha história da xícara de açúcar? Não... Seria muito idiota... Mas... Enfim... Foi para a cozinha, pegou uma xícara grande, saiu pela área de serviço e desceu os lances de degraus que separavam os apartamentos. Estendeu a mão para tocar a campainha. Gelada que estava, hesitou. Estendeu novamente a mão, mas algo a fez parar. Olhou para o chão e viu o filete de sangue saindo por debaixo da porta. Estacou. Respirou fundo várias vezes. Decidiu que não era momento de pedir açúcar e subiu às pressas para o seu apartamento. Pegou o telefone e nunca na sua vida teve tanta certeza do que deveria fazer.
Este é um texto já publicado anteriormente, mas como quero dar uma continuidade, voltei a publicá-lo. Vamos ver no que vai dar...
10Jun2008 - 11:53 | ( 9 ) comentários
O BILHETE Diferente de Bilhete... Eu tenho um monte de historinhas dos meninos, todas registradas, desde quando eram bem pequenos. Umas eram contadas pelas avós, mas a maior parte foi presenciada por nós mesmos – eu e André. Uma dessas é essa que segue abaixo, de 4 anos atrás. "Outro dia, fazendo arrumação no escritório, achei a pasta de desenhos do Arthur do ano passado, quando estava na 1a. série. Nem me atrevi a perguntar para ele o que significava aqueles desenhos malucos, com balõezinhos de fala de seus bonecos - porque todo desenho do Arthur é uma verdadeira história que demora a ser contada. Como eu estava fazendo a faxina, resolvi apenas ver. Mas um deles eu parei e morri de rir. Aparentemente era uma cena de mar, com uma dobradura de peixe, algumas pessoas e uma delas perto do peixe que, acho, estava sangrando.
Mas o mais interessante é que ele começou a pintar o mar de azul, direitinho, num dos cantos. Foi cansando, a pintura foi ficando mais escassa e por fim, do meio para o fim da página uma rabisqueira só e um bilhete para a professora: "FINGE QUE EU PINTEI DIREITO"." 8Jun2008 - 12:49 | ( 23 ) comentários
A RATINHA Quando Davi estava no 2º. ano escolar, a escola começou a trabalhar a leitura com as crianças, estimulando-as a ler livros. Para isso, cada criança comprou um livro recomendado pela escola que foi lido, revezado durante a semana entre elas e trabalhado em sala de aula depois. Normalmente, quando chega o livro em casa, a primeira pessoa a lê-lo sou eu. Gosto de ler histórias infantis e gosto de saber o que meus filhos estão lendo. Entretanto, o que Davi trouxe nesta época me surpreendeu . A história era basicamente esta: Era uma vez uma ratinha que queria conhecer o mundo. Então, vivia andando prá lá e prá cá, fuçando tudo. Um dia, nessa "fuçação", encontrou uma amêndoa, mas tão logo tocou nela esta rolou, rolou. Enquanto a amêndoa rolava, a ratinha ia atrás. A amêndoa foi parar numa toca e a ratinha atrás. Rolou as escadas, e a ratinha atrás. Entrou numa casinha e a ratinha atrás. Mas nessa casinha tinha um homenzinho, que ficou muito bravo com a ratinha por que ela estava com a amêndoa dele. A ratinha, muito brava, disse que achado não é roubado e que, portanto, aquela amêndoa era dela. O homenzinho ficou muito bravo. Tão bravo, mas tão bravo, que trancou a ratinha na casa dele dizendo que ela seria sua empregada de agora em diante e que só sairia depois de limpar a casa dele e fazer a sopa dele. Depois, ele até daria a amêndoa pra ela. Ela concordou com o trato. Passa dia e entra dia e a ratinha foi sua empregada, mas nada do homenzinho soltar a ratinha ou dar a sua amêndoa. Um dia o homenzinho se descuidou e deixou a porta destrancada, mas a ratinha percebeu e quis logo sair, mas lembrou-se da amêndoa e, antes de sair, revirou a casa toda até achar a amêndoa. Achando-a, foi embora, para o homenzinho nunca mais achá-la. Já em casa, contando suas aventuras e mostrando a amêndoa, esta cai no chão e revela-se ser um estojo que tem dentro um lindo colar que, dali por diante, a ratinha usa sempre. Bom, esta é a história. E com meu espírito altamente crítico naquele dia (coitado do André, coitado do Davi, coitado do Arthur...) tirei algumas "morais da história". 1. Achado não é roubado, mesmo quando aparece o dono. 2. Para alcançar o seu objetivo não existe limites. 3. Se sumir alguma coisa dentro de casa, com certeza foi a empregada. 4. Sempre que fizer algo supostamente errado, fuja para bem longe! 5. Nem todo ladrão é mau. 6. Todo ladrão tem seus bons motivos para sê-lo. 7. Toda pessoa quieta em sua casa é um vilão em potencial. 8. Toda empregada que vai embora deixa a casa uma bagunça. 9. Todo homem está louco para arranjar qualquer pretexto para conseguir uma empregada em tempo integral. 10. Toda empregada antiga de casa tem interesses escusos. 11. Fazer acordo com um homem nem sempre é vantajoso. 12. Que mais?
Este texto é antigo, eu achei hoje entre os meus arquivos e não resisti... 5Jun2008 - 20:03 | ( 27 ) comentários
O BOLO - Por que tem que mexer tanto nesse bolo? – perguntou ele, pertinho dela, espiando por sobre seu ombro. - Agora não tem que mexer tanto. – explica ela – Eu estou incorporando as claras, que vão ajudar o bolo a crescer e a dar leveza. - Ah... – quase entendendo – Quer dizer que as claras fazem isso, é? - Fazem. Você já comeu suspiro. – diz ela, enquanto mexia, lentamente na vasilha – Já viu como é leve? - Um suspiro sempre é leve. – diz ele assoprando leve perto de seu pescoço. Ela se encolhe e sorri. - Eu estou mexendo... – avisa ela. - Hummm... Eu sei... – provoca ele. - Você não tem mais nada para fazer? – pergunta ela, deixando a vasilha sobre a pia e pegando a forma já untada. - Bom, na minha cabeça passa um monte de coisas para fazer agora. – diz ele – Mas todas vão pedir a sua colaboração. - Nem pensar. – diz ela, resoluta, enquanto despeja, lentamente, a massa de bolo sobre a forma. - Você tem certeza que essa coisa vai crescer? – pergunta ele, olhando curioso para a massa sendo derramada. - Absoluta. – diz ela – Sempre cresce. A menos que o fermento esteja estragado, claro. - E as claras. – complementa ele. - O que tem as claras? – pergunta ela, abrindo a porta do forno. - As claras ajudam a crescer. - Sim, ajudam. – confirma ela. - Então! – malicioso. - Então, o que? – estranha ela, enquanto arruma a louça suja dentro da pia para serem lavadas. - A gente podia tentar uma culinária diferente, o que acha? – abraçando-a pela cintura. - Com as claras?! – ensaboando a louça. - Não exatamente com as claras... - Mas presumo que vá ao forno a 180 graus. – diz ela, cantando no falar. - Menos, bem menos... Talvez uns 37 graus. Que acha? – arrisca ele. Ela limpa a mão no pano de prato e arrisca. - Vamos lá! Dê logo esse livro de receitas que estou curiosa! - Você não imagina com que prazer eu dou! – diz ele rindo. 4Jun2008 - 14:03 | ( 16 ) comentários
JOGO - Uma cor! – disse ela, na brincadeira, para ele pensar rapidamente. - Azul. – respondeu ele, afastando o cabelo dela do rosto. - Um número! – fazendo um trejeito com que o cabelo caísse novamente sobre o rosto e alguns fios tocassem o peito dele. - Dois. – diz ele rindo da pequena manobra dela. - Rio ou mar? - Rio. Os daqui, claro – responde ele, escorregando as mãos para sua cintura. - Números ou letras? – pensativa, procurando mais perguntas. - Letras. Com números eu trabalho todos os dias. - Hum... Deixa eu ver... Eu ou outra? – perguntou, sobre ele, olhando-o nos olhos. - Você, mas sem os cotovelos machucando as minhas costelas. Ai! – respondeu ele, virando-a de costas – Agora é minha vez. Ele olhou longamente para ela. - Diz... – disse ela. - Digo. – respondeu – Pedro ou Augusto? Por um momento pareceu que o ar deixou de circular no quarto. Por um momento pareceu que os olhos dela não achavam um amparo para uma queda iminente. Por um momento pareceu que a vontade de fugir venceria a de dizer o que explodia em seu coração. Por um momento pareceu que tudo o que acontecera até então fazia parte de uma loucura fantástica e que era só abrir os olhos para tudo acabar. Mas ela queria? - Eu quero Augusto. - respondeu ela. Ele deu um pequeno sorriso, percebendo todo o caminho dos pensamentos dela. - São Paulo, ou ao meu lado? – novamente ele. - Onde você estiver. – respondeu, desta vez sem hesitar. - Sua vida, ou a minha? – desta vez com olhar provocante. Ela sentiu o peito doer, porque desta vez não podia errar. Se errasse, sabia que se repetiria o seu relacionamento anterior. - A minha... – com voz baixa e trêmula, fechando os olhos. Sentiu o pequeno vazio que ficou entre eles, a movimentação do ar, a luz que se apagou, o quarto que girou e tudo que se fez diferente. Abriu os olhos, viu que já era 7 horas e estava na hora de levantar. Riu dos sonhos dentro dos sonhos. Adorava ter sonhos assim, mas era extremamente cansativo. - Augusto... – diz ela, enquanto caminha para o banho – Vou me lembrar deste nome. Pedro, também. Coisa maluca! – diz rindo e abre a torneira do chuveiro – Prova de estatística, hoje... Números e números... Vamos lá! Que o mundo continua a girar! Desligou o chuveiro, se enxugou, colocou os jeans e tênis, tomou o café da manhã com os pais e correu para a faculdade. Em algum lugar, alguém ainda levantava, com dor na costela, lembrando-se de um certo par de olhos e um vestido azul...
(FIM)
1Jun2008 - 19:18 | ( 29 ) comentários
Pausa... Fui ao dentista. - Du, posso pegar esse equipamento aqui? - pergunta a outra dentista, já com o equipamento na mão - parece que aqui ele não carrega nada. Ele olha por cima dos óculos e dá de ombros. Dois minutos depois ela volta. - Du, quando liga aquele negócio ele acende todas as luzes azuis? Ele pára o que está fazendo na MINHA boca e olha espantado para ela. - Que luzes azuis? - pergunta ele. - Aquelas vermelhas e amarelas... - responde ela, já vendo que a coisa não era vem assim. - Claro que não acendem azuis! - responde ele. - Então eu acho que o negócio explodiu!
29Mai2008 - 20:20 | ( 28 ) comentários
ENCONTRO MARCADO Olhou-se no espelho e reparou que tinha uma pequena espinha perto da orelha. Aproximou-se mais para poder enxergar. Não... não iria mexer nisso. Mas o seu olhar cruzou com o olhar do espelho e ficou a olhar, olhos nos seus olhos. - Eu não devia estar aqui. – disse ela ao espelho – Eu vou embora e peço demissão. A certeza de seu sentimento, a convicção do que devia ser feito a fez relaxar. Não havia coisa mais certa a fazer, a não ser voltar para casa. - Voltar para casa? – ouviu perto do espelho. Era ele e seu coração derreteu-se de alegria – Falamos tanto e não me disse onde está. Ela riu de sua alucinação. Claro que não havia dito nada! Ele sempre estava tão perto dela. Tão perto e tão longe... - Eu estou em Belém. – respondeu ela para o espelho, no qual via somente o seu rosto repetindo os seus gestos – Mas eu vou embora para São Paulo. - Quando você vai? – ouviu a voz, quase aflita. - Acho que semana que vem. Esta semana ainda tenho que fazer algumas coisas por aqui, tirar algumas fotos, ir à Ilha de Marajó na sexta-feira. – respondeu ela displicentemente – Acho que vou na terça-feira. - Amanhã vou estar aí. – diz ele. - Aqui? Aqui em Belém? – assombrada. - Sim, aí em Belém. Viu os seus olhos bem abertos, assustada. Afinal, como aquilo estava acontecendo? Naquela noite não dormiu direito e também não sonhou com ele. E também não sabia onde encontrar-se com ele. Tudo confuso, muito confuso. Passou o dia pela cidade, foi ao Mercado Ver o Peso, passeou pela praça República e voltou ao hotel. Sentia-se imensamente sozinha. E Pedro nem telefonara para ela. Pensou em ligar para ele, mas achou que ele não merecia saber que ela estava ligando porque estava se sentindo só. Tomou um banho rápido, vestiu o seu vestido azul e saiu. - Ai... – disse, assim que entrou no elevador – Não coloquei meu perfume. Não tem importância. Pegou o táxi que estava na porta. - Estação das Docas, por favor. – instruiu ao motorista. Longe de ser um porto ou docas, lugar cheio de estivadores, lá era lugar onde se concentrava os melhores restaurantes da cidade, chopperia, sorveterias. Lugar de gente que quer namorar, passear, olhar o rio imenso. Lugar de onde saíam os barcos a passeio pela orla de Belém.
Desceu do táxi, entrou por uma das portas automáticas e ficou pensando se iria jantar ou se veria ainda o por do sol no rio. Resolveu tomar sorvete. Caminhou pelo corredor, distraída, mas algo, de repente a fez mudar de idéia e entrou na chopperia. Detestava chopp. Olhou à frente, no balcão e o viu. Ele sorriu para ela. Era como se sempre tivesse sido assim. Ela foi até ele, coração acelerado, porque desta vez sabia que não estava sonhando e nem dormindo e nem alucinando. O toque das mãos veio um pouco tímido, mas o calor que passava foi o suficiente para que o beijo viesse com paixão. Tinha o gosto que ela sempre imaginou. E apesar de estarem em uma chopperia, não tinha o seu gosto. - Eu estou com o carro aí fora, podemos dar uma volta. – diz ele. Foi ela quem deu o segundo beijo e o guiou para fora da Estação.
27Mai2008 - 19:51 | ( 16 ) comentários
CARIPY - Dona Laura, aquele folder que me deu sobre aquele hotel que tem uma casa na árvore… - começou ele – Eu achei uma boa idéia aquela. - Qual a boa idéia? – perguntou ela, enquanto alisava um dos búfalos que estava por ali. - Fazer uma casa na árvore, ou várias, que dessem uma visão do rio. – respondeu ele. Ela sorriu e deixou o búfalo de lado. Enfiou-se mais para o recinto onde se via a forragem dos animais. Olhou a forragem, ainda verde, chutou levemente, como que para misturar. Escutou um guincho e torceu o nariz. Não gostava desses pequenos animais que durante a noite às vezes atraía cobras para lá, só pelo fato de existirem. - Eu tinha certeza que teria essa idéia. Sempre gostei de Caripy. E aquele hotel, em especial. É simples, mas aquela casa na árvore é um charme indescritível, sem dúvida! Mas… Aqui… - Qual o problema de ser aqui? – perguntou ele, interessado. - Raios. – respondeu ela, ainda fiscalizando o depósito e as baias – Sabe aquela coisa de árvore altas atraírem raios? Já imaginou se justamente quando a casa estiver ocupada caísse um raio? - Hum. – pensou ele – E quantos raios já caíram nessa de Caripy? Ela olhou para ele, pega numa armadilha de seu pensamento. - Certo… Nenhum. – diz ela – Mas aqui não é Caripy! - E a senhora só quer colocar em funcionamento na estiagem. Portanto, não há porque se preocupar com raios e trovões. - Mais ou menos… Apesar de estarmos na estiagem, chove todos os dias. – responde ela. Ele debruça-se sobre uma das baias fechadas e vê uma búfala ao fundo. - Elas são bem grandes. – comenta ele. - Esta está prenhe. Estou esperando o veterinário. Desconfio que vou ter problemas com ela. - Por que? – curioso, virando-se para dona Laura. - Hum… Ela anda triste, alimentando-se mal. Não devia ser assim. Acho que ela deve estar sofrendo algum incômodo. Fora isso, está tendo a cria em época errada, na época da estiagem. Ela é um bom animal… bom animal, não é, querida? – disse acariciando a cabeça da búfala, que se aproximou da dona. - Interessante como os animais entendem o que sentimos e até o que dizemos. – diz ele, como que para si mesmo. - Também somos animais, Augusto. A diferença é que não estamos muito dispostos em conversar um com o outro. – diz ela, ainda alisando a búfala – Até que ponto você deixa o outro invadir aquilo que você considera seu domínio? - Depende de quem seja, e depende do que seja este espaço. – respondeu ele, sem coragem de colocar a mão no animal, tão próximo. - Depende porque, de certa forma, você já sentiu até que ponto existe alguma identificação entre vocês. – diz ela – Do contrário, colocaria uma barreira na hora. Ele coça a cabeça. - E se... – começa ele – E se não existir forma de verificar se há ou não esse algo em comum? Ela olha de frente para ele. - Eu, sinceramente, - diz ela, séria – preferia que você esquecesse isso. Eu quero dar uma olhada no pré-projeto que você me falou de manhã. - Vamos lá. – responde ele, quase aliviado. 26Mai2008 - 11:35 | ( 16 ) comentários
PEQUENO PASSEIO - A senhora pode contratar uma agência. Eles fazem esse serviço. – explicou o recepcionista do hotel – Veja, esta daqui, por exemplo, faz um passeio pela Ilha de Marajó. Os hóspedes que fizeram o passeio gostaram muito. - Quantas horas? – quis saber ela. Ele olha espantado. - Não, não são horas. – diz ele – São três dias. Sai na sexta-feira e volta no domingo no final da tarde. - É longe? - Umas três horas de barco. Mas é confortável. – garante ele – Ligue para a agência. Eles são muito atenciosos. Ela ligou mais tarde e marcou para aquela sexta-feira. Já que estava por ali, por que não iria? Durante todo o dia zanzou pela cidade, ficou impressionada com a quantidade de mangueiras que existia por toda parte. Impressionada com as duas praças que viu – Praça da República e Baptista Campos – pela sua enormidade, charme, cuidado. Lindas! Tirou fotos dos prédios modernos, dos prédios antigos, dos shoppings, das belenenses vendendo tacacá e maniçoba em enormes caldeirões. Viu os belenenses, lá pelas 18h, saírem de suas casas, colocar as cadeiras para fora, trazerem uma mesa, uma enorme vasilha e cuias em que tomavam a maniçoba ou o açaí fresco. Passou no shopping que ficava atrás do seu hotel, embora não tão perto, mas perto da praça Baptista Campos – amou aquela praça. Comeu algo e foi embora. Estava cansada. Subiu ao quarto, tomou outro banho frio e foi para cama. Nem ligou a televisão. Ficou pensando que, se por um lado tinha sido dócil demais ao aceitar a vir para Belém por conta dos problemas conjugais de Pedro, por outro, viu-se arrastada por uma curiosidade por alguém que lhe chamava, sabe-se lá de onde. E o sono veio manso, tranqüilo, como o barulho suave do ar-condicionado que funcionava sem parar. Sentiu caminhar para uma cadeira grande e confortável. Tinha certeza que havia deitado em uma cama, mas agora estava em uma cadeira, em uma sala espaçosa, mas com uma iluminação que deixava a desejar. A senhora chegou logo em seguida e sentou-se em frente. Não olhou diretamente para ela e nem parecia que soubesse que estava ali. Mas ele sabia e mostrou isso no seu modo de respirar diferente, no seu coração que acelerou ligeiramente, na sua inquietude em ficar apenas sentado. - Algo errado? – perguntou a senhora. - Acho... Acho que não. – respondeu ele – Estou cansado. - É... Hoje foi um dia puxado. – disse a senhora – Eu também vou dormir – e levantou-se. Ele também se levantou, despediu-se da senhora e foi para o quarto que ela já conhecia. Tão logo ele deitou-se na cama e fechou os olhos, tudo apagou-se, mas algo diferente foi acontecendo. Não era mais num quarto que estava. Era numa praia imensa. Areia fina. Água para além do horizonte. - Eu estava aqui hoje pela manhã quando falei com você. – disse ele, ao seu lado. Ela assustou-se, pois não esperava vê-lo. E agora ela o via. Olhos nos olhos. Ele sorriu e estendeu a sua mão para tocá-la mas parou no meio do caminho. - Tenho medo de tocar em você e você sumir. - E se eu tocar em você? – sorriu ela. - Sem tocar. – decidiu ele – Senta aqui na areia comigo. Conta para mim quem é você. Sentiu como se tivesse passado a noite inteira conversando com alguém realmente interessado nela. Falou, contou acontecimentos que tinham acontecido tempos atrás e que nem lembrava mais, disse das cores que mais gostava, das roupas esquisitas que já vestira, dos cortes de cabelo que sempre arriscou a fazer. Ouviu do quanto ele gostava de se meter no meio do mato, do quanto ele gostava de administrar coisas e fazer acontecer coisas que pessoas nem imaginavam, de como era fácil ele levantar pequenos negócios. Então o tempo passou... E parecia que a ligação do telefone estava falhando. Mas ela não estava falando ao telefone. Ela acordou. No hotel. E nenhum dos dois disse onde estava... Talvez porque, naquele momento, estavam juntos.
22Mai2008 - 19:24 | ( 18 ) comentários
MANGUE - Quanto tempo não chove? – perguntou ele, enquanto andava pelo mangue seco. - Três meses. Mas isso é normal aqui – respondeu ela, indo à frente. - Mas o gado se ressente muito. Vocês tem algum tipo de solução para isso? – perguntou, tomando cuidado com uma das raízes que lhe atravessava o caminho. - Na verdade, o gado não morre de sede, mas de fome. – explicou ela – Não existindo pastagem, não há comida. E só água não faz gado engordar. - Certo. Não tem como fazer irrigação? - Para pastagem? – riu ela – Não é um investimento que valha a pena. - Então, com certeza, esta não seria a melhor época do ano para se trabalhar com turismo por aqui. – concluiu ele. - Pelo contrário. – respondeu ela, afastando um galho – Na época das chuvas seria impossível, apesar de ser excelente para a engorda do gado. Na época da seca eu praticamente fico com a fazenda parada, torcendo para que as chuvas venham logo. Então, fazer daqui um pólo turístico seria interessante nesta época. Ele suspira, pensativo, enquanto abre-se a clareira onde o carro está estacionado e de onde se vê parte do gado da fazenda – enormes búfalos negros, mas nesta época, alguns esquálidos. - Até onde a água sobe na maré? – pergunta ele. - Até aqui onde estamos. – responde ela. - Mesmo na época das chuvas? Ela ri. - Na época das chuvas, meu rapaz, corre o risco de ficarmos todos sob as águas. – diz ela – Mas é só um risco. Nunca ficou totalmente. - Chega até a casa-sede?! – surpreso. - Não, nunca! – responde, ainda rindo – Mas eu não construiria nada aqui. O terreno não é seguro e sempre existe a possibilidade de realmente haver uma cheia maior. Prefiro perto da sede. Além de referência para o hóspede, é segurança para ele e para mim em qualquer eventualidade, certo? - Isso é verdade... - Este olhar perdido... – diz ela, olhando para ele – Esteve a sonhar acordado? Ele sorri e acena afirmativamente com a cabeça. - Eu a vi. – diz ele – Ela é linda! Mas eu ainda não sei onde está. Parece tão próxima... Ela olha para ele com olhos que enxerga a alma e sorri. - Vamos. – decide ela – Ainda temos que dar uma passada no curtume. Tenho certeza que qualquer bom pensamento se desvanece por lá... Ele acha graça. Lembrava bem do cheiro quando passava perto de um que havia perto da fazenda de seus avós.
21Mai2008 - 05:26 | ( 13 ) comentários
BELÉM Da janela do hotel podia ver a diversidade de Belém. De um lado, prédios modernos, lindos! De outro, casas de estilo colonial – janelas imensas, azulejadas, algumas casas altas, outras bem baixas. Olhou para o lado da Praça da República e reparou no termômetro: 8 horas, 28 graus – na sombra! Estava dentro de um quarto com ar condicionado e hesitava se descia para o seu café da manhã ou ficava por ali, com fome, mas fresca. Resolveu que uma hora ou outra teria que enfrentar o calor que a havia recebido quando desembarcou do avião na noite anterior. Um calor que grudava no corpo. Escolheu o jeans que iria enfrentar o mormaço e a blusa de alcinhas. Separou as sandálias rasteirinhas e foi para o banheiro. Era um momento para não pensar em nada... Adorava esses momentos de não pensar em nada... nada... e a água escorrendo sobre o corpo. Pegou o sabonete do hotel e começou a se ensaboar e deixando a água correr... - Prefiro o seu sabonete. – ouviu ele dizer, sabe-se lá de onde! Achou engraçada essa intimidade mais que íntima, já que ele não estava ali e talvez nem a visse de verdade. - Claro que lhe vejo! – disse ele a esse pensamento – Você é que não está me vendo. Eu estou vendo o rio correr à minha frente, imenso, o céu azul, claro, calor imenso... E vejo você nesta água correndo... linda... nessa pele morena, cheirosa... Vai mudar o sabonete?
Ela olha para fora do box, vê sua nécessaire na bancada da pia. Pega o seu sabonete de lavanda e retorna ao banho. Imaginou que, se olhasse para fora, talvez... - Talvez eu soubesse onde está? – perguntou, curioso – Talvez... Só que estou de passagem por aqui e logo vou ter a minha atenção voltada para outras coisas. Mas... Eu poderia jurar que você é de São Paulo. Ela ri, ainda debaixo do chuveiro, um riso de prazer. - Pode rir... Eu sei que é... – diz ele – Eu ainda lhe encontro. Tenho que ir... Ela desligou o chuveiro, sem nunca falar nada, a não ser sorrir. E imaginar que ele ainda estaria por ali vendo se secar, se trocar, olhar-se no espelho e olhar novamente para o termômetro da praça que insistia em marcar altas temperaturas. Abriu a porta, sentiu o bafo do corredor do hotel e caminhou para tomar o seu café. Nem 9 horas eram.
19Mai2008 - 14:49 | ( 9 ) comentários
REFERÊNCIAS - Em Barra Velha tem uma fazenda que é aberta a turistas. – dizia a senhora – Mas eu quero em outros moldes. Eu quero como se fosse uma pousada, com todas atividades comuns de uma fazenda. - O turista se veria tão fazendeiro quanto a senhora? – perguntou ele, enquanto lambiscava um pão com queijo de búfala cremoso. - Exato! – animada – É claro que não seria tão fazendeiro quanto eu, – riu – mas seria mais ou menos isso, mesmo! Acordar cedo, participar da ordenha das búfalas, ajudar na preparação dos queijos, deslocar os animais para a área de pastagem. Essas coisas. - Entendi. – disse ele, empurrando a cadeira para trás, olhando para o quadro atrás da senhora – Esse quadro... É daqui? Ela vira-se para trás para ver o quadro. |